Produção de sentido e actividade criadora

"Você mesmo escreveu que uma das causas da apatia ambiente era o sentimento de todos os valores, todas as normas, como sendo puramente contingentes. No facto de criarmos nós próprios o sentido, dir-se-ia que nos confrontamos com um absurdo radical. Se não há sentido absoluto, como não nos diremos que nada tem sentido?

Antes de mais, há um facto que um dia, mais tarde ou mais cedo, teremos de digerir: somos mortais. Não só nós, não só as civilizações, mas a humanidade enquanto tal e todas as suas criações, toda a sua memória são mortais. A duração da vida de uma espécie animal é, em média, de dois milhões de anos. Ainda que, misteriosamente, deixássemos indefinidamente para trás esse cabo, no dia em que o Sol atingir a sua fase terminal e se tornará uma gigante vermelha, a sua fronteira passará algures entre a Terra e Marte: o Parthénon, Notre-Dame, os quadros de Rembrandt ou de Picasso, os livros onde foram depositados o Banquete ou as Elegias de Duino serão reduzidos ao estado de protões fornecendo energia a essa estrela.
Perante isto, duas respostas possíveis. A primeira é Pascal, é Kierkegaard: não posso aceitá-lo, não posso ou não quero vê-lo: algures, tem de existir um sentido que sou incapaz de formular, mas em que acredito. O "conteúdo" pode ser diferente - fornecido pelo Antigo Testamento, os Evangelhos, o Corão, os Veda, pouco importa. A outra atitude é recusarmo-nos a fechar os olhos, e compreendermos ao mesmo tempo que, se queremos viver não podemos viver sem sentido, sem significação. Nesta acepção, as significações social e historicamente criadas não são nem contingentes nem necessárias; são, como escrevi, meta-contingentes: sem elas, não há vida humana, nem individual nem social. É esta mesma vida que, a dado momento, nos permite compreender que as significações em causa não têm origem "absoluta", que a sua origem é a nossa própria actividade criadora de sentido. A tarefa de um homem livre é saber-se mortal e manter-se de pé à beira do abismo, neste caos desprovido de sentido e no qual nós fazemos emergir a significação. Ora, sabemos que esse tipo de homem e o tipo de comunidade correspondente podem existir. Não falo sequer dos grandes artistas, pensadores, cientistas, etc. O próprio artesão digno desse nome que moldava não estátuas de deuses, mas mesas, vasos, etc., investia absolutamente o seu trabalho; o facto de o vaso ser belo, de a casa se manter em pé era uma realização. Este investimento da actividade doadora de forma, e portanto de sentido, existiu em todas as civilizações, sem excepção. Existe hoje cada vez menos, porque a evolução do capitalismo destruiu todo o sentido no interior do trabalho.
(...) Portanto, devemos conferir o seu sentido ao facto de trabalharmos, de produzirmos, de criarmos e também de participarmos em projectos colectivos com outros, de nos dirigirmos cada um de nós, individual e colectivamente, de decidirmos das orientações sociais. Isto, bem entendido, é difícil. Mas trata-se de qualquer coisa que, em certa medida, já existiu. Entre os gregos, até finais do século V a.C., que não acreditavam na imortalidade ou, em todo o caso, não numa imortalidade "positiva" (a vida depois da morte era infinitamente pior do que a vida na terra, como sombra de Aquiles ensina a Ulisses, na Odisseia). Para os modernos, é mais complicado. Porque entre estes, houve sempre, mais ou menos escondidos, restos da crença numa transcendência de tipo religioso. O que não os impediu, por outro lado, de irem muito longe. Mas o que se fez, fez-se também em função de um outro deslocamento: pôs-se um paraíso terrestre no "fim da história" (marxismo) ou como direcção assintótica desta (liberalismo). Estamos em condições de saber hoje que eram duas formas da mesma ilusão, porque precisamente não há "sentido imanente" na história e não haverá se não o sentido (ou o não-sentido) que formos capazes de criar. E isto, sabiam-no os que se deixavam matar numa barricada: é o facto de eu me bater que tem um sentido, e não o facto de, daqui a dois séculos, vir a existir uma sociedade perfeita. E a apatia actual representa sem dúvida, em parte, o trabalho do luto pela morte dessa ilusão de um futuro paradisíaco."

CASTORIADIS, Cornelius
Uma Sociedade à Deriva
Entrevistas e Debates, 1974-1997
2005, Éditions du Seuil
2006, 90 Graus Editora (pp. 334-336)

11.11.2008